Alunos de Odemira foram reis em concurso para jovens investigadores

Projecto «Borboleta Monarca em Odemira» venceu concurso nacional e participa na fase internacional em Paris

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Entrega do prémio ao alunos na presença da professora

Os alunos do clube de ciências da Escola Secundária Manuel Candeias Gonçalves, de Odemira, venceram em Maio o primeiro prémio do 17.º concurso "Jovens Cientistas e Investigadores", promovido pela Fundação da Juventude, e vão em Setembro participar na 21.ª edição do concurso da UE para Jovens Cientistas que irá decorrer em Paris.

O projecto vencedor estudou a "Borboleta Monarca em Odemira" – tendo sido monitorizada uma colónia residente em Vila Nova de Milfontes – e contou com o apoio da professora Ana Paula Canha que em 2007 recebeu o Prémio Inovação do primeiro Concurso Nacional de Professores.

"A borboleta monarca (Danaus plexippus), nativa do continente Americano, é famosa pelas suas migrações extraordinárias em extensão e número de indivíduos. Até há pouco tempo foi considerada migrante de passagem pelo nosso país até se descobrir uma colónia residente em Vila Nova de Mil Fontes", explicou Paula Canha em entrevista ao Ciência Hoje.

Foram sete os alunos (do 10.º e 11.º) que, com a coordenação desta professora, monitorizaram durante um ano uma população de D. plexippus e foram aplicando diferentes métodos de amostragem de populações biológicas: marcação e recaptura, transectos lineares e método dos quadrados.

Observaram que em Portugal estas borboletas não migram e reproduzem-se todo o ano com um pico de intensidade no Outono e na Primavera, ao contrário do que acontece na espécie de origem. Foi ainda investigada a possibilidade de a monarca ter "comportamento invasor", verificando-se no final que "não existem fenómenos de competição pelo alimento entre as lagartas de Danaus plexippus e lagartas de borboletas nativas ou outros insectos", salientou a docente.

A investigação questiona, porém, a possibilidade de competição pelo alimento entre monarcas adultas e borboletas nativas, uma vez que co-existem no mesmo local e se alimentam das mesmas espécies de plantas. "Uma das espécies que pode competir pelo alimento com Danaus plexippus é Callimorpha quadripunctaria; é uma espécie prioritária da directiva habitat que foi observada na área de estudo", referiu Paula Canha.

O grupo verificou também que número de machos e fêmeas de D. plexippus difere ao longo do ano e que no Verão apenas se conseguem detectar machos, apesar de continuarem a nascer borboletas. Será este o próximo mistério a desvendar, admitindo a professora que "no futuro próximo serão dados passos na tentativa de conhecer melhor a biologia e fisiologia desta borboleta e o seu habitat".

Para motivar é preciso "gostar dos alunos"

Segundo a docente, "o papel dos alunos é tudo" desde ter a ideia a desenhar a experiência, ver que materiais e tempo precisam para a realizar, submeter a experiência ao aval de um perito, desenvolver a experiência, tratar os dados, escrever o relatório final e propor o trabalho a feiras onde o possam defender.

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Trabalho de campo

À professora coube a tarefa de "ser companheira dos alunos em todas as fases e providenciar todos os meios de que eles necessitam" e ainda de "zangar com eles quando não são rigorosos ou organizados e animá-los quando tudo parece monótono".

Ana Paula Canha é professora há 22 anos, 15 dos quais passados em Odemira. O interesse pela Biologia diz que "sempre existiu" e que a decisão de ser docente "foi uma descoberta mais tardia e dolorosa".

"Estava a trabalhar em aquacultura nas dei aulas durante uns tempos. Quando foi preciso optar para ficar a tempo inteiro numa das ocupações, descobri que não era capaz de deixar a escola e que a escola era para mim uma segunda casa", contou.

A docente, que já venceu o Prémio Inovação do 1.º Concurso Nacional de Professores e a medalha de mérito municipal, acredita que a estratégia para motivar os alunos passa pelo próprio entusiasmo com aquilo que ensina. Defende ainda que é preciso "gostar dos alunos, ter sempre estratégias no bolso e ser muito exigente mas dar também na medida dessa exigência".

Apesar de não concordar com todas as actuais políticas educativas, especialmente no que concerne à legislação sobre faltas dos alunos que considera que "não funciona de maneira nenhuma", Paula Canha não aderiu às manifestações dos professores em Lisboa. "Tenho outras formas de me manifestar como por exemplo escrevendo directamente para o ministério, seja a protestar, seja a pedir esclarecimentos e nunca fiquei sem resposta", salientou. A professora sublinhou ainda que se "fazem reformas a mais sem se avaliarem as anteriores" e que se pode ter o "melhor sistema e as escolas melhor equipadas, mas se os professores não forem bons, de nada serve".

 

Clube de Ciências - Bigeo

Se nas aulas de Biologia e Geologia que lecciona não tem muita possibilidade de fugir aos programas curriculares impostos, porque há um exame final que é crucial no acesso à universidade, é no clube de ciências e na área projecto que Paula Canha ultrapassa "todas as barreiras do possível".

O clube de ciências foi lançado na escola em 1998 com a finalidade de colmatar lacunas dos próprios professores da escola nas suas competências práticas. Convidaram então alguns professores universitários para darem formação e concorreram ao Programa Ciência Viva a fim de apetrecharem a escola com material que permitisse ensino experimental.

Em 2001 Paula Canha começou a incentivar os alunos para o desenvolvimento de trabalhos mais autónomos e com carácter experimental e de investigação. Os temas dos trabalhos respondem aos interesses pessoais dos alunos ou a problemas do seu quotidiano que eles pretendem resolver através da ciência.

O clube já foi amplamente premiado por trabalhos sobre temas como o rato de cabrera (Microtus cabrerae) de Odemira, controlo de predadores nas pisciculturas, o declínio do montado, efeito da música nas plantas, óleo de cravo como anestésico de peixes, controlo da ascosferiose nas colmeias, entre outros, até ao mais recente "Borboleta monarca em Odemira".
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A Borboleta Monarca


Este último projecto trouxe ainda uma medalha de bronze da feira mundial de ciência I - SWEEP 2009 - International Sustainable World Project Olympiad onde também participou o projecto "Salvinia molesta: Uma ameaça global".

O trabalho sobre a salvínia (planta aquática), feito por duas alunas do Clube Bigeo, levou mesmo a que o Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB) manifestasse a intenção em proibir a sua comercialização e a uma possível inclusão desta planta na lista das espécies invasoras ou de risco ecológico conhecido.

O próximo passo será levar os alunos responsáveis pelo projecto "Borboleta monarca em Odemira" à 21.ª edição do EUCYS - European Union Contest for Young Scientists (Concurso da UE para Jovens Cientistas) que decorre entre 11 e 16 de Setembro em Paris.

 

Ser cientista

"Já se nasce cientista. Há miúdos que são naturalmente muito curiosos", respondeu assim Paula Cunha à pergunta sobre como se cria um cientista. Porém, muitos alunos "têm o azar de ter professores que lhes pulverizam a curiosidade", limitando-os aos conteúdos programáticos pré-definidos, sendo que "aprender passa a ser saber umas coisas que se escrevem num teste para depois esquecer". Por esse motivo, Paula Cunha esforça-se por desmontar esses esquemas, assim que toma contacto com eles.

Para a docente, os alunos "têm muita coisa boa lá dentro e é preciso trabalhá-los" nomeadamente a sua curiosidade, criatividade, espírito crítico, persistência, rigor, organização, planeamento, capacidade de concentração, raciocínio lógico, capacidade de expressão e técnicas de trabalho em equipa. Além disso, "nem sempre os melhores alunos são os melhores cientistas".

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